Habitar, Renovar, Conservar - Divagações em torno da nossa identidade, das coisas que lhe dão expressão e da importância dos condomínios

O verbo Ser é mais relevante, na nossa vida, do que o verbo Ter. Ou devia ser assim, pelo menos. Apesar disso, nesta “troca de palavras”, há um verbo que talvez caracterize melhor o que são as nossas vidas: “Estar”. Podemos Ser ou Ter muita ou pouca coisa, mas vivemos todos em permanente mudança, mesmo quando disso nos não apercebemos, e é seguro que em cada momento “estamos” qualquer coisa, em algum lugar. 
Esta consciência da fragilidade e da incerteza da manutenção do papel em que estamos num certo momento (definido pela posição afectiva, profissional ou outra, que ocupamos face aos que nos cercam), é que possivelmente por vezes nos leva a sobrevalorizar o “ter coisas”, a posse de bens físicos, delimitados tanto quanto possível noespaço (os bens imóveis), que nos podem dar alguma segurança.
No caleidoscópio de bens que temos, ou buscamos ter, a casa ocupa um lugar central. Não foi sempre assim, no entanto. Durante a maior parte do tempo de existência da espécie humana, fomos nó-madas, vivendo da caça e da recolecção de produtos da natureza, e o que tínhamos eram acampamentos. Há pelo menos dois milhões e meio de anos que os seres humanos começaram a fabricar os seus instrumentos, mas foi só há menos de 10 mil que uma mudança radical teve lugar: passámos a ser agricultores-pastores, e a “estar” perto das nossas hortas, dos pastos, e mais tarde das fábricas, das lojas, das feiras…
Passámos a domesticar a natureza e inventámos para nós a “domus”, a casa, o refúgio permanente. No centro desse refúgio, inicialmente muito simples, colocávamos a lareira, que servia para aquecer, para cozinhar e para afugentar os animais.
Essa lareira deu o nome ao “lar” (o espaço que está à volta da lareira), e por esse caminho, da domus-domesticação e da lareira-lar, se foi afirmando uma realidade essencial: nós somos os que estamos “dentro do lar” (e não no escuro), no es-paço “doméstico” (e não na selva). “Somos” em função de onde “Estamos”.
Esta importância do lar, símbolo de identidade e autonomia (diz o ditado que “quem casa quer casa”), pode no entanto ter dois entendimentos radicalmente distintos. Um é aquele de que temos estado a falar, que é colectivo, gregário, solidário, e que valoriza o lugar, a pertença, os afectos, o “estar”. O outro, muito mais recente, mas também muito promovido nos últimos anos, é individualista, solitário, egoísta, e valoriza a posse, a segregação, a hierarquia, o “ter”. Este último caminho, poucos haverá que nele se reconheçam conscientemente, mas na verdade somos seres contraditórios, e muitas vezes temos mais facilidade em reconhecer os erros dos outros do que os nossos. Talvez por isso, desde cedo os núcleos urbanos foram tendo, no seu centro, “casas” de valores e ética: a cidade estado na antiga Mesopotâmia organizava-se me torno do Templo, e já na Grécia clássica se discutiam os direitos de propriedade, com as primeiras leis que limitaram a propriedade do solo. No fundo, o problema foi, desde o início, que na dimensão do “ter”, o direito ao lar de cada um pode colidir com o direito dos outros, e ou essa contradição se resolve pela conciliação de interesses (substituindo o “eu tenho e tu tens” por “nós estamos e somos”) ou degenera em conflitos.
Em todos os momentos de avanço da Humanidade, a noção de preservação colectiva do espaço, da urbe, e não de cada lar em separado, prevaleceu. Foi assim na Roma antiga, nos burgos defensivos medievais, nas “Bastidas” do Renascimento. Não eram excepção os complexos de acesso restrito (como o Vaticano, ou a “Cidade Proibida” em Pequim), pois estes eram considerados espaços não privados, e modelos ideais de cidade.
A partir da época moderna surgem concepções inovadoras do espaço da cidade, dos lares, que se tornam mais “abertas”, com maior área de circulação (as grandes avenidas) e equipamentos colectivos para “as massas” (os teatros, os estádios), enquanto se acentuam as diferenças entre bairros e as contradições sociais. A cidade moderna atraiu uma pe-riferia muitas vezes degradada (subúrbios em que muitos perdiam o direito a “estar” num lar digno, e dessa forma o direito ao seu próprio “ser”, à sua “identidade”). A reacção contra esta angustiante injustiça está na raiz de tendências, no século XX, que buscaram a “cidade racional e utilitária”, igual para todos, e onde todos pudessem ter o seu espaço. Esta valorização do “ter” foi, assim, uma reacção positiva e bem intencionada, que ajudou a lutar contra a exclusão e contra uma sociedade de direitos só para alguns. Mas, como sempre na vida, nós “estamos” em transições, e as necessidades mudam. Os interesses colectivos são cada vez mais importantes para a defesa dos próprios interesses individuais. A simples posse não resolve as angústias de ninguém, e o direito de posse sem limites conduziu à degradação do ambiente, a novas formas de exclusão e a impasses na gestão dos “bens comuns”.
A gestão de condomínios é uma expressão desta nova realidade, porque valoriza acima do lar de cada um, da posse de cada um, o que é de todos, o que é a domus de todos. É por isso um espaço de negociação, mas é sobretudo um espaço de encontro, de partilha, de nova descoberta dos valores do “estar” para além do “ter”, e que nos deverão ajudar a todos a reencontrar um lugar na sociedade em que vivemos, um lugar útil e que, por isso, nos pode deixar mais felizes.
No centro desse lar partilhado está, como sempre, a “lareira”, que agora já é reforçada por sistemas partilhados de condutas de gás, electricidade, água, e outras redes que estão na base do que hoje “somos”. Na verdade, somos cada vez mais dependentes uns dos outros, e se não tivermos medo disso veremos que estamos no bom caminho: o de reencontrar um tempo, há cerca de 10.000 anos, quando o “ter” era acessório, e o “Ser”, a identidade, era fortemente alicerçada na coesão do colectivo.
Nas primeiras aldeias, todos cuidavam do lar de cada um, e a conservação era a base da renovação, das casas e dos afectos. Os condomínios foram “uma solução de acaso” para quem não conseguia ter a sua “moradia”, mas podem ser, hoje, uma oportunidade para conhecer os vizinhos, para quebrar a solidão, para renovar a vida e para reforçar os afectos que são, afinal, a única coisa que importa. E, como em todas as coisas importantes da vida, precisam de uma gestão clara e eficiente: foi isso que os “vizinhos” sempre fizeram, ao escolher os seus representantes, e é isso que, também, devem procurar os condóminos de hoje, quando procuram uma gestão profissional.

Luiz Oosterbeek
Prof. Coordenador do Instituto Politécnico de Tomar